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Sábado, Outubro 04, 2008
Posted
9:40 AM
by JOÃO BOSCO
Ode para Roberta.
Agora, sou apenas dono absoluto da minha imaginação. Não obstante, quando conto os segundos e idealizo a sua chegada, sou capaz de sentir o teu cheiro e a textura da tua pele branca como a alma de um santo. Seremos uma só entidade durante dez dias; mas os dias seguintes, ao longo dos quais ficaremos novamente longe em corpo, não obliterarão o que ficará em nossos corações. Existe esse amor, que determina o que somos e o que podemos nos períodos de dificuldade. E há essa insustentável leveza do ser, que me ataca em dias quentes e frios, quando largo tudo só para pensar em ti.
Te amo sempre mais.
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Terça-feira, Agosto 19, 2008
Posted
2:02 PM
by JOÃO BOSCO
Sonho que nunca se realiza.
J.Bosco
Naquele dia eu não queria nem esperava nada de ninguém. Nem piedade. Havia o sofá e a TV ali em frente e a mim só competia arrumar uma maneira rápida e indolor de ser absolutamente absorvido pelo que ocorresse atrás da tela da televisão. Apenas isso.
Estava nessa quando ela apareceu - acho que tinha entrado pela porta da frente - e sem cerimônia sentou-se ao meu lado, fitando o meu perfil de imperador de moeda. Permaneci naquela posição, estático e ignorando a minha observadora, até ela perceber que de mim não arrancaria uma palavra, um grunhido de raiva sequer; e até fazê-la se resolver a tomar as rédeas da situação e fazer o que bem entendesse comigo.
"Ei", ela disse, afinal, "você tem algum sonho, do tipo impossível de realizar?".
Em geral, costumo ser tímido e formal com as mulheres, mas naquele momento resolvi testar algo que eu sabia existir recalcado dentro de mim. Algo poderoso e devastador como uma bomba de napalm. Sentia que aquela era uma oportunidade que jamais se repetiria e então me joguei de cabeça no escuro, só pra ver o que acontecia. Morrer, não morreria. No máximo, levaria um soco na minha moral, o que não me incomodava nem um pouco. Minha moral sempre foi indolor.
Então disparei, sem me concentrar direito no meu alvo.
"Olha, vou te contar o meu sonho. É algo meio lúdico, meio erótico. E você está nele, digo, você faz parte dele, acho até que você é o próprio sonho... Mas vou logo avisando que nele, no sonho, eu não te toco. Não, não há coito, bolinagem, essas coisas. É algo semi-platônico, entende? Você aparece de repente, pára na porta no meu quarto, que está aberta. Da cintura pra cima, você está normal, digo, da cintura pra cima, você está vestida. Blusa, soutien etc. Porém, da cintura pra baixo... Bom, você não está completamente nua... Usa meia-calça e salto alto. Acho que você sorri pra mim, mas disso eu não lembro direito. Suas coxas são brancas, muito brancas, disso eu me recordo com clareza...".
Não a olhei enquanto lhe contava o meu sonho. Mas adivinhei que ela estava apática, embora a atmosfera que nos envolvia exigisse, no mínimo, um leve piscar de olhos incrédulo, ou um bocejar constrangido.
Após dois minutos ou mais, ouvi a voz dela, mole como geléia.
"O que você acha dessa blusa?".
Fui obrigado a olhar. Era uma blusa azul e de tecido leve, que chegava até metade da barriga dura e repleta de uma penugem cintilante.
"Essa blusa parece com a que eu visto no seu sonho? Acha que ela serve?"
"Sim, ela serve...". Creio que suei muito antes de dizer isso.
"Tenho uma meia-calça e um par de saltos altos guardados na gaveta. Não sei se parecem com os que você vê no sonho. Você espera eu ir buscá-los?".
"Claro que espero. Espero o tempo que for necessário...". Eu já não suava nessa altura do diálogo. Estava firme e seguro no que dizia - disso eu lembro bem.
Ela saiu flutuando em direção a porta de entrada, que também era a de saída, e saiu do apartamento deixando atrás de si um rastro de concupiscência que demorei muito tempo para compreender e digerir.
Na TV, passava um documentário sobre a vida animal na savana africana. Um leopardo esguio como uma bicicleta de corrida perseguia uma gazela ágil, até alcançá-la e derrubá-la com uma patada mortal. Aquele era o tipo de cena que me absorvia por completo e do qual eu precisava para escapar um pouco da minha própria vida animal, cheia de leões correndo atrás de mim, leões enormes que espumavam pela boca e peidavam jatos de fogo, como se seus cus fossem escapamentos de motor a turbo.
O momento da morte da gazela se passava em câmera lenta, e recebia um toque a mais de tragicidade pela voz mórbida da narradora e apresentadora do programa; mas eu não conseguia ver nem escutar coisa alguma. Minha mente estava em branco e eu seguia absorto numa confusão de sentimentos e lembranças de leões, gazelas e meias-calças. Tudo em cores opacas e interagindo de maneira ilógica, como acontece nos sonhos. Esse tipo de sonho típico, que nunca se realiza.
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Sexta-feira, Julho 25, 2008
Posted
9:56 AM
by JOÃO BOSCO
O Muro.
Pra você, Roberta.
Você tão linda, mais linda às quatro da manhã, num ambiente clandestino com cheiro de eucalipto e toalhas esterilizadas. Você me chamou bonito e especial e disse um eu te amo tão apressado e insólito que mal pude ouvi-lo e compreendê-lo. O seu sorriso, o seu corpo esguio, branco e perfeito, a sua maneira tão feminina de falar e se mover. Não pude não dizer que também te amava e que aquela também era a noite mais feliz da minha vida.
Unidos simbioticamente numa só entidade de carne e espírito, tentávamos, em vão, não sucumbir ao fato de que entre nós havia uma passagem aérea só de ida marcada para segunda-feira. Um novo muro de Berlim a separar estupidamente o que não podia ser separado. Porém, você cantando Life can be so strange..., a me puxar os cabelos: aquele muro de Berlim de repente tornou-se tão eficiente quanto uma cerca viva de flores vermelhas. Tão rígido quanto uma torta de morango. Mas infelizmente, nós dois sabíamos, contra os fatos não há poesia que resista. Nem amor. Nem jet skys. Eu não podia te oferecer mais do que a melhor noite de nossas vidas. Mais do que o muro pudesse suportar e ruir diante de nossos olhares vitoriosos. E foi por isso que me limitei, até irmos embora, a escalar cada centímetro do teu corpo, como se ele fosse o próprio muro, tão fácil de ser contornado - e vencido.
J.Bosco
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Terça-feira, Julho 22, 2008
Posted
6:21 PM
by JOÃO BOSCO
Os cinco filhos de Bukowski
As velhas comiam sushis na Avenida Desembargador Moreira e todas pareciam prontas para aproveitar o último sopro de vida que ainda lhes restava no sangue, misturado com Campari. Chegamos, nos sentamos próximo à enorme parede de vidro, e pedimos leite de macaca. Com bastante álcool e leite condensado. Em poucos minutos os cinco filhos de Bukowski começavam a fazer história numa cidade provinciana e encantadora, com cinco velhas semi-mortas e viciadas em sushis exóticos do tipo "hot"...
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Terça-feira, Julho 01, 2008
Posted
10:06 AM
by JOÃO BOSCO
Homologou. Muito bem Sr. Kassab. De agora em diante olharei de modo diferente para os seus olhos verdes. Sinceramente, até já considerava boa a sua administração. Gostei da lei que livrou o centro de São Paulo da poluição visual e de outros decretos que Vossa Excelência concebeu. Só considerei um pouco absurda a decisão de barrar a circulação de caminhões na cidade, o que fatalmente gerará crise de abastecimento, etc. Conselho de amigo: recorra ao transporte ferroviário: ganha-se em termos ambientais e, sobretudo, econômicos. Olha, talvez eu vote no senhor. Ainda não sei.
Aquele abraço.
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Sábado, Maio 31, 2008
Posted
5:44 PM
by JOÃO BOSCO
Campanha: "SR. PREFEITO, HOMOLOGUE ESSA PORRA E ME CHAME LOGO, QUE EU QUERO TRABALHAR".
Seja solidário a minha causa e junte-se a mim!
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Sábado, Abril 05, 2008
Posted
5:33 PM
by JOÃO BOSCO
COLESTEROL NO SANGUE.
J.Bosco
Estou caminhando numa calçada movimentada da cidade em direção a lugar algum. É que tenho andado preocupado com meu colesterol, cada vez mais alto. Nas minhas veias corre um mistura tenebrosa de sangue dissolvido em gordura trans. Ou seria Sis? Ou Beta? Ou gama? Mais: seria Beta-Vegetal, Gama-animal ou Sis-alienígena? Sei lá. Fato é que ando para atenuar esse lance do colesterol no sangue e, enquanto caminho, vou pensando sobre os últimos acontecimentos. Pior: tento atribuir uma causa místico-lógica a cada um desses acontecimentos. Vim parar aqui porque Deus quis ou porque fui burro demais a ponto de não saber escolher a direção correta? Sou estagiário de direito ao invés de jornalista porque sou um reacionário incorrigível? Semana passada, acabei não aceitando aquele convite (irrecusável?) porque a Teoria Conspirativa do Universo estava em meu desfavor?
Não sei, e acho melhor continuar não sabendo. Pode ser que a verdade revele algo que não quero nem preciso saber. Se sou dono no meu destino ou se ele já veio escrito, conforme dizem os deterministas, é algo que eu quero mais é que se foda.
E assim continuo meu caminho pela cidade em direção a lugar algum. Porém agora sei de uma coisa que se não faz de mim o sujeito mais feliz do mundo, ao menos me deixa sentir um coisa que se parece muito com paz, tranqüilidade, etecetera e tal.
E essa coisa me diz que é preciso não pensar. Ou pelo menos não pensar muito. Porque isso pode ser perigoso. Perigoso demais. Mais perigoso que esse negócio de colesterol no sangue.
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Posted
10:28 AM
by JOÃO BOSCO
ESTADO BRUTO
J.Bosco
Chego à portaria do prédio cansado, só penso nos cinqüenta minutos em que permanecerei debaixo da ducha quente e no que virá depois.
Alguém retém o elevador no último andar e isso me irrita. Tenho pressa, o meu corpo dói e minha mente pede descanso. Lembro-me novamente da ducha quente, do pijama, da cama, talvez um livro antes de pegar no sono. Hoje estou sozinho. A Lana está concluindo a tese de doutorado em Budapeste. Volta dentro de um mês; pode ser que demore mais um pouco. Costumo ouvir a voz dela sussurrando “eu te amo” ao meu ouvido, quando estou na fronteira entre o sono profundo e o estado de vigília. Saudade dos seus olhos verde musgo. Do seu cabelo liso, compacto e denso. Do seu jeito inteligente e suave de construir frases e fazer amor. Para o ano planejamos ter um filho. Ainda não decidimos o nome. Melhor não pensar nisso agora. No momento eu não posso. Ou não consigo. Não importa.
Finalmente liberam o elevador que demora eternos 60 segundos para chegar. De dentro saem duas loiras acompanhadas de um sujeito com cara de leão de chácara. Elas sorriem, ele principalmente, uma loira por si só é uma dádiva divina, duas são a realização cabal de um homem. Melhor dois passarinhos na mão do que um voando. Errei a frase? Não importa.
Ao entrar em casa, jogo a pasta com documentos e processos em cima do sofá, e deixo-me guiar pelo piloto automático. Agora estou em terreno conhecido, não há perigo algum. Antes de tirar a roupa e atirar-me sob a água quente, quase fervendo, lembro-me que estou com sede e vou à geladeira. Água ou cerveja? Tal dúvida me deixa escandalizado. Estou cada vez mais inclinado ao escapismo alcoólico. Deve ser saudade da Lana. Sei lá. Pego uma garrafa d’água e bebo ali mesmo no gargalo. Que ninguém saiba disso. Ou que fiquem sabendo. Não importa.
Agora sim começo a despir-me. A sensação de ter o corpo livre do terno, da gravata, do sinto, me agrada. Sou um homem em estado bruto, um Adão sem pecado. Temporariamente sem a Eva, é verdade. Mas de qualquer maneira satisfeito com a breve sensação de liberdade plena. Feliz, com sono, sedado, feliz, cerveja, na ge-la-de-i-ra... Feliz...
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Sábado, Fevereiro 02, 2008
Posted
2:21 PM
by JOÃO BOSCO
Um ABC quase bonito.
J.Bosco
O ABC, visto da minha janela, até que não é tão feio. Com um pouco de boa vontade, é possível perceber alguma beleza no amontoado de casas, fábricas e prédios que se misturam como os ingredientes de um bom baião-de-dois.
Por aqui, segundo o último senso, vivem mais de três milhões de pessoas. A maioria oriunda de outros estados. Chegam aqui tímidos e ariscos. Mas depois, rechaçados pelo instinto de sobrevivência, absorvem toda a malandragem e filha-da-putice possíveis, e com um pouco de sorte conseguem um emprego na indústria, o que, diga-se de passagem, já é grande coisa.
Com o tempo surgem os filhos, e a molecada ainda pequena começa a assimilar com uma rapidez incrível a malícia e o pragmatismo essenciais para se dar bem na região. Esse negócio de livros é algo secundário entre a população local. O tipo estudioso é visto com reservas no ABC. O importante é arrumar logo um emprego numa “firma” e tentar fazer carreira, mesmo que para isso seja necessário pisar em cima de quem quer que seja e engolir vinte bois por dia. Rudimentos de ética e valores morais que se explodam. No ABC prevalece a ética do operário, daquele cara que se fode o ano inteiro num emprego de merda e quer aproveitar da melhor maneira possível o pouco tempo e dinheiro que lhe sobra, no fim das contas. Depois, aí sim, se pensa em livros, etc.
Mas se engana quem acha que essa mistura cultural impressionante deu origem a um lugar sem as velhas e tradicionais distinções sociais. Por aqui, é quase obrigatório o uso de certos distintivos próprios de grupos sociais bem definidos. Em geral, esses distintivos recaem na aperência, mais precisamente no jeito de se vestir. A classe média branca – formada por paulistas natos – em geral procura adotar um visual mais próximo daquele que se vê nas MTVs da vida ou em filmes estrangeiros. Procuram, grosso modo, se afastar ao máximo de todos os símbolos genuinamente nacionais. Assim se tornam facilmente confundidos com um roqueiro americano, por exemplo, ou com um almofadinha capitalista, outro típico enlatado tipo importação. O importante, para esses caras, é transparecer diferença e, claro, superioridade.
Ao largo dessa camada por assim dizer privilegiada, destaca-se a maioria da população, uma massa meio amorfa e desfigurada. São nordestinos e filhos/netos/etc. de nordestinos que, por questões práticas e de sobrevivência, misturam traços da cultura de origem com trejeitos locais. São, em sua maioria, os típicos operários, ou "peões", para usar um termo local bastante corrente. Freqüentam forrós, pagodes, sambas, "baladas black" e dependendo da preferência adotam um visual e um linguajar específicos.
Vale dizer, nessas alturas, que a convivência entre tais grupos é apenas aparente. Muito embora não se veja, pelo menos atualmente, manchetes de jornais anunciando brigas ou rixas entre essas camadas, percebe-se uma sutil hostilidade, por exemplo, entre um roqueiro branco e um “baiano” mulato, freqüentador de forrós tipo “risca-faca”. É o típico preconceito à moda brasileira. Um sujeito não diz abertamente ao outro que o odeia e o quer longe dele, mas em compensação reserva-lhe um desprezo silencioso, que muitas vezes agride mais do que um soco na cara. E nesse turbilhão de elementos imiscíveis, dança quem não adotar uma “moda” distintiva; quem não virar um roqueiro “emo”, cheio de piercings e tatuagens, um genuíno “black” com tranças e blusas da marca “pixaim”, ou usar um topete regado a muito gel e camisa “baby look”, combinação bastante apreciada nos guetos de “baianos” do ABC. Roda, por fim, quem não aceitar de bom grado essa coisa toda e só quiser viver com um pouco de liberdade.
Da minha janela vejo esse ABC que tanto me esmaga e marginaliza (porque nem de longe cogito em me confinar num desses grupos), e lamento que esse lugar quase bonito um dia possa vir a explodir como napalm quando a Intolerância das pessoas sair do armário e atingir o ponto culminante. Algo que, fatalmente, a meu ver, acontecerá um dia. Aliás, pensando bem, já está acontecendo.
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Domingo, Janeiro 27, 2008
Posted
4:03 PM
by JOÃO BOSCO
A Professora de Vernáculo.
O inverno curitibano era para mim uma espécie de dicotomia insolvível. Se por um lado agradava-me a atmosfera úmida e gelada que pairava sobre os pinheirais e sobre as casas de muro vivos e baixos, estilo polonês; por outro, me era insuportável sentir as mãos congelando quando tudo que eu queria na vida era ter um pouco de equilíbrio interior, enquanto lia os meus livros com a janela aberta.
Num daqueles dias siberianos, resolvi sair caminhando do bairro onde morava – Alto da Glória, quase ao lado do estádio Couto Pereira - até o parque Barigüi, distante dali uma hora e meia. Vesti sem pressa toda a minha indumentária de inverno, tomei um café parco, para enganar a aflição, e saí sorvendo cada centímetro da beleza mezzo gringa de Curitiba.
Toda vez que me entregava a passatempos como aquele, costumava evitar as ruas e avenidas principais e seguir pelas ruelas arborizadas, com paralelepípedos substituindo o asfalto. Fazia-me bem aquela paisagem ao mesmo tempo singela e pretensiosa, da qual o povo local se orgulhava ao melhor estilo blasé, como bons ascendentes de europeus.
Às vezes, por entre as casinholas polacas, encontrava um sebo de livros ou um pequeno comércio de vinhos bons e baratos; mas na época a necessidade de economizar era maior que a vontade de beber um Santa Felicidade ou adquirir a poesia do Paulo Leminski a preço de banana. Portanto eu apenas me limitava a olhar as fachadas sonhando que um dia, se quisesse, poderia comprar todos os Vinhos do Porto do mundo e ter a coleção do Leminski todinha só pra mim, numa bela e robusta prateleira de madeira de lei.
A verdade é que eu andava fodido demais e sonhava muito para não perder o prumo e afundar de vez na merda. Se fosse possível, caminharia até a Austrália para fugir um pouco daquele frio que fatalmente me conduzia para dentro de mim mesmo, tal como o carrasco conduz o condenado à guilhotina. Percorrer as ruas de Curitiba por algumas horas era, pelo menos naqueles tempos, a melhor maneira de fugir à mão esmagadora da realidade e trazer de volta um pouco de serenidade. Como diria Bertrand Russel, o homem que soubesse tirar proveito do ócio se tornaria um homem melhor e menos sozinho. Eu seguia a risca o conselho do filósofo francês.
Cheguei ao Barigüi sentindo meus pés como duas bolhas enormes cheias de sangue e dor; porém sentia-me feliz por ter me livrado do monstro metafísico que me perseguia em casa, durante o inverno.
Encostei-me num quiosque, pedi uma cerveja escura e sentei-me de frente para umas das pontes que cruzavam o enorme lago do parque. E de repente, sem mais nem menos, transformei-me num daqueles cines que dragavam o lodo das margens do lago. Nunca gostei muito de clichês, mas não conseguia deixar de me lembrar, enquanto estava ali, bancando o cisne comedor de lodo, que “a felicidade estava nas pequenas coisas”.
Seria aquela sensação o que o escritor tcheco Milan Kundera chamou de “A Insustentável Leveza do Ser”? Não sei. O certo é que eu estava gostando daquilo e acabei demorando para perceber que era observado por alguém sentado a poucos metros de distância, ao meu lado.
Ela não era linda nem loira. Pelo menos deste clichê eu estava livre naquele dia. Tinha olhos expressivos, boca grande e uma magreza razoável. Fiquei sabendo logo que não era anoréxica. Ao contrário da maioria das mulheres locais, não sonhava em ser modelo. Comia chocolate e carne vermelha até não poder mais. E como eu, era dependente de um bom sal de frutas. Tinha nascido e se mantido magra por natureza, como a mãe, as tias e irmãs. Na verdade era bonita. Pelo menos pra mim. Simples nos gestos e no falar, vestia-se de maneira espontânea e sensata. E tudo isso me deixava um pouco fora do sério. Sempre gostei de mulheres originais. Não agüentava mais as beldades que se afetavam por nada. Todas modelos & atrizes em potencial. A cidade precisava de mulheres como aquela. Simples e despretensiosas.
Iniciamos a conversa com as frivolidades de praxe. Até chegarmos aos pontos em comum. Que não eram muitos. Nem interessantes. A propósito, em determinado ponto do diálogo, cheguei a ficar com sono, e só saí da letargia no momento em que ela me disse, quando interrogada sobre o que fazia, que era professora de português. Daí em diante não consegui mais suprimir a minha verborragia. Disse que gostava de escrever contos e a indaguei sobre os seus escritores preferidos. Falava feito um louco, enquanto ela só me olhava mantendo no rosto um meio-sorriso bovino.
Quando por fim a deixei falar, fiquei surpreso com a maneira desinteressada com que se referia ao próprio ofício. Era professora de português, preferia os métodos da lingüística moderna aos ditames da gramática tradicional. Conhecia um pouco da obra do Rubem Fonseca e tinha lido Budapeste, do Chico Buarque. E o que mais podia dizer? Não muito. A não ser que se interessava por livros tanto quanto se interessava por filmes de fácil digestão, sem legendas e com bastante pipoca.
Aquilo a princípio foi o mesmo que conseguir levar um mulherão pra cama e logo em seguida constatar que a musa tinha peitos moles e caídos. Vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Mas era inverno e eu estava pré-disposto a me apaixonar. Mesmo desconfiado, insisti e engatei com ela uma relação duradoura.
Pra começar, nosso sexo era intenso e, por assim dizer, intelectualizado. Durante o coito eu citava trechos dos Contos Eróticos, do Marquês de Sade, os quais ela desconhecia por completo. Depois de gozarmos – quase sempre gozávamos ao mesmo tempo – eu procurava tirar com ela algumas dúvidas de ordem semântica, embora quase nunca recebesse uma resposta a contento. Às vezes cometia a loucura de fazer análises sociológicas de clássicos literários. Certa vez disse a ela que odiava Euclides da Cunha por suas idéias antropológicas acerca do homem nordestino. A resposta vinha sempre em forma de meio sorriso bovino. Ou de um singelo, porém carinhoso, “vamos mudar de assunto”.
Ademais, ela me agradava porque me deixava falar o quanto eu quisesse. Muito embora não conseguisse na maioria das vezes entabular com ela uma conversa com início, meio e fim, podia botar pra fora tudo que havia aprendido durante todos aqueles anos de leitura e caminhadas reflexivas – e era isso, e apenas isso, que me interessava, afinal.
E assim fui feliz com ela. Sentia-me satisfeito não apenas por ter conseguido uma companheira para todos os momentos, tristes e alegres, como também por ser ela uma professora de vernáculo.
Dizia aos colegas de trabalho que tinha valido à pena esperar tanto tempo, e com tanta angústia, pela mulher da minha vida. Cheguei até a declarar, num momento de delírio que só o amor é capaz de proporcionar, que ela estaria escrevendo para mim um livro de poesia que me seria dado de presente, no dia do nosso casamento.
Presente este que estava fadado a nunca existir. Primeiro porque jamais, em momento algum, mesmo quando a nossa paixão parecia ter atingido o ponto culminante, cogitamos em nos casar. E depois porque minha professora de vernáculo nunca se interessou muito por esse negócio de poesia. Não mais do que se interessava por filmes fáceis, regados a refrigerante e pipocas.
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Sábado, Janeiro 26, 2008
Posted
2:00 PM
by JOÃO BOSCO
Um álbum de figurinhas chamado Solidão.
João Bosco Pires.
Já éramos muito amigos e nossa conversa há tempos havia descambado para o plano temerário da intimidade máxima. Ela me contava detalhes das suas aventuras com imbecis do gueto imundo onde morava. Com eles não tinha conversa antes, durante ou depois. Só queriam aquilo e depois a chutavam de volta pro ralo. A princípio insinuava com uma ternura quase fraterna que eu era diferente deles, que era um homem inteligente, com “conteúdo”. E muito, muito sensível. Depois, mais à vontade, confessou-me que queria ir à minha casa para me mostrar tudo que sabia. Coisa que eu jamais esqueceria. Ela também era bastante inteligente, sensível, e tinha muito que ensinar. Eu podia pagar pra ver.
Marcamos o encontro para um sábado de sol. Antes fomos ao supermercado e compramos algumas cervejas. E uma pizza horrível. A caminho do meu apartamento, rimos bastante, ela me olhando o tempo inteiro e mostrando seus dentes muito brancos de negra levada. Eu gostava de sentir o cheiro acre daquela pele densa e escura como petróleo. Só me irritava um pouco a fragrância de creme ordinário com o qual mantinha tesa a cabeleira crespa. Sou muito sensível a odores. Sobretudo a odores humanos. Mas aquela negra me deixava louco como um neandertal irascível. Puta merda.
Chegamos em casa com as mãos entrelaçadas e tomamos todas as cervejas em menos de uma hora. A pizza, esquemos no forno até torrar a massa. Mas tudo bem. Fome não era o nosso problema. Havia algo mais premente para resolver. Aquela excitação eqüina. Tudo o mais não passava de detalhes acessórios.
Já estávamos ali ao alcance do último copo, quando ela, sem aviso prévio, pulou em cima de mim com os olhos injetados. Diante dela eu era apenas uma criança indefesa pronta para ter o pescoço estrangulado. Mas não. Descobri logo que tinha um domínio absoluto sobre o meu corpo. A briga portanto seria boa. Mais destrutiva que o maior desastre aéreo da história. Atracamo-nos feito duas serpentes amazônicas. Puta merda. Aquele cheiro de creme ordinário estava começando a me deixar tonto. Prendi a respiração e mergulhei no pântano desconhecido. Caverna do Dragão. Por onde andaria o Mestre dos Magos para me ajudar?
Só sei que desfaleci e ressuscitei horas depois. Sentindo sobre o meu peito o peso do braço pulsante do meu algoz. Doravante tentei me concentrar apenas nos sons e imagens do meu apartamento. Tentativa desesperada de sentir-me vivo de novo. Mas o meu olfato criou vida própria e me fez submergir de novo no mar de cheiros. Puta merda. Eu me sentia feliz como um cão com um osso coberto de carne fresca. Tinha vontade de pular pela janela e sair sobrevoando a cidade-monstro. Coisa estranha, porque não havia motivo lógico para estar feliz. O mundo inteiro era um barril de petróleo com cheiro de creme capilar barato.
Ela despertou quando eu já estava mais ou menos recuperado e sorriu o sorriso mais sacana do mundo. Queria mais. E tivemos mais, muito mais, até o momento em que ela, sem vacilar, jogou o travesseiro para o lado e disse vou-me embora, com uma doçura atípica. Eu já havia conhecido outras negras como ela e sabia como elas podiam ser frias e brutais, sobretudo quando eram um pouco ambiciosas e se sentiam atraentes. Aquela, contrario sensu, era doce e não queria nada além de um pouco de felicidade a prestação.
Permaneci deitado e sem me mover, enquanto ela se preparava para me deixar em paz. Estava cansado demais para ir até a porta. Além do mais me sentia incapaz de gostar dela a ponto de ficar ao seu lado por mais de cinco horas a fio. Tanto que só nos encontramos de novo uma semana depois para trocarmos o restante das nossas figurinhas repetidas. Figurinhas de um álbum estranho chamado Solidão.
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Terça-feira, Dezembro 11, 2007
Posted
9:08 PM
by JOÃO BOSCO
JUSTIÇA A MODA BRASILEIRA.
Por João Bosco Pires.
Hoje, dia 11/12, mais um terreno invadido por sem-tetos em São Paulo foi legalmente desapropriado e restituído aos seus proprietários-reclamantes. Mais uma vez se fez cumprir o direito natural à propriedade privada, apreciado juridicamente desde a era do Império Romano, e positivado pela Declaração Universal dos Direitos humanos, a famosa “Carta Francesa de 1789”, famosa por garantir aos homens e mulheres direitos básicos até então inimagináveis, em tempos de absolutismo e arbitrariedade.
A cena dos tratores destruindo os barracos (a maioria mobiliada), e dos policiais atirando contra a multidão de favelados, teria sido apenas mais um clichê urbano, se não houvesse se destacado, do meio da turba, um grupo de crianças de todos os tamanhos formando um cerco diante da soldadesca, a gritar “queremos moradia”. Reticentes – mais por estarem diante das câmeras do que por senso de humanidade – os policiais erguiam ameaçadoramente seus sprays de pimenta, enquanto ali ao lado uma jovem mãe, bebê ao colo, dizia ao repórter que seu filho iria crescer revoltado, vendo sua casa despedaçada por tratores e seus irmãos enxotados como cães do lugar onde cresceram.
Aquele grupo de crianças certamente invalidará o discurso inflamado de quem acredita que a incursão ao crime tem menos a ver com problemas sociais (como o da desapropriação em questão) do que com inclinação pessoal de “vagabundos”, de uma “raça inferior” que prefere as vias mais fáceis e brutais, para conseguir a tão sonhada ascenção social.
Doravante aqueles meninos e meninas favelados jamais terão condições de acreditar que um dia poderão reivindicar os mesmos direitos que os portadores dos títulos de propriedade hoje reivindicaram – e obtiveram. Logo eles compreenderão que as máquinas que esmagaram seus brinquedos e camas jamais esmagariam os brinquedos e camas dos filhos destes proprietários. Saberão que os homens da lei que hoje atiraram balas de borracha e borrifaram gases contra seus irmãos jamais contrariariam os interesses dos donos da terra, do céu, da água e do ar.
Conseqüentemente, confusas sobre o que venham a ser direitos (sobretudo direitos decorrentes da dignidade humana), muitas dessas crianças recorrerão a meios ilícitos para obter o que desejam. Sempre humilhados, não hesitarão em humilhar. Destituídas de seus lares sem uma devida notificação e amparo públicos, invadirão residências alheias com a mesma fúria dos tratores que destroçaram seus barracos, sem aviso prévio. E com a mesma empáfia dos policiais que agrediram seus olhos e corpos com gases e balas de borracha, agredirão quem quer que seja, sem culpa perante a lei, a sociedade ou a própria consciência.
E a nós, que hoje estamos tranqüilos diante de nossas tevês, assistindo apaticamente a mais uma cena de desapropriação em São Paulo, certos (mesmo que limitadamente) dos nossos direitos de cidadãos, resta torcer para que um dia não esbarremos por aí com uma daquelas criancinhas, que hoje aprenderam a dar um novo significado à palavra Justiça – Justiça à moda brasileira.
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Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Posted
8:13 AM
by JOÃO BOSCO
O SALTO ALTO.
J.Bosco Pires
*
Salto alto,
maquiagem em excesso,
roupa social e cabelos hidratados: ela só queria parecer mais mulher,
mais bonita,
madura,
e talvez bem sucedida.
Mas, meu Deus, pareceu-me apenas uma figura tola e triste.
Nada mais que isso
**
A batida na porta ao meio dia de domingo.
Um rosto desconhecido, meio sorriso.
“Oi, só conheço você aqui no prédio, poderia me emprestar uma mala?”.
As desculpas mais comuns às vezes partem dos seres mais inusitados.
***
Dois sujeitos conversando ao meu lado, na rua.
- Naquela cidade, você vê prédios luxuosos de um lado,
e barracos de papelão do outro.
E ao meio-dia, meu, a gente morre de calor.
“Cara, eu conheço esse lugar”, pensei, enquanto ajustava o volume do MP3,
e tentava escapar do vento gelado
****
Frio de manhã, calor a tarde, e mais frio à noite.
Versão local da primavera?
Ou mais um efeito do aquecimento global?
****
No meio do largo São Bento,
usando minha mais reluzente gravata,
disse a mim mesmo que aquilo era tudo que eu queria.
E na verdade aquilo era tudo que eu não queria.
*****
“Pessoal, acreditem na empresa em que trabalham.
Aqui há espaço para todos.
Eu comecei aqui, e vejam só onde cheguei”.
Dito isso, arrumou a pequena bolsa, perguntou pelo ponto de ônibus mais próximo,
e foi embora.
******
Por que você não deixa crescer um pouco mais aqui em cima?
Só um pouquinho vai....
Que cara é essa?
Falei alguma besteira?
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Meu filho, disse ela à saída do Aeroporto de Congonhas, serás muito feliz aqui, podes ter certeza.
Ali ao lado um homem de 49 anos,
pasta preta sob o braço esquerdo,
ex-executivo bem sucedido,
ultrapassado pelo estagiário que falava chinês (avançado)
corria ao caixa eletrônico para ver se a última parcela do seguro desemprego já havia sido depositada.
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O JARDIM DA MINHA AVÓ
J.Bosco Pires
Aquele jardim tão denso e variado era meu - só meu.
Meu mundo particular, onde eu era rei, herói, belo.
Isso só até minha avó chegar com o copo de vitamina e me convidar para entrar.
“Além do mais”, ela dizia, voz doce, “você tem que estudar, meu filho”.
De repente aquele jardim voltava a ser apenas um jardim.
Um bonito jardim concebido pela minha avó.
Ao lado da nossa mesa um grupo ria alto e todos falavam ao mesmo tempo, feito gralhas.
Tomei mais um gole,
devolvi ao prato o caroço da azeitona
e comentei com a Soraya.
“Chato não?”.
“Sabe”, ela disse, “adoro ver pessoas assim, alegres”.
Nesse momento senti um buraco negro e escuro se abrindo dentro do meu estômago.
De repente, uma onda enorme, a maior da sessão.
Um monstro temeroso e convidativo.
“Vai, rema forte, essa é tua”, disse o amigo.
Fingi não ter ouvido e continuei concentrado no azul turquesa da água,
uma verdadeira obra divina.
Na verdade, eu estava era com medo.
Escutávamos música até o sol nascer.
Entre oito e quinze garrafas na mesa.
Cds espalhados em cima e ao lado do som.
Conversa sobre história, filmes, passado.
E alguma coisa sobre futuro.
Meses depois eu disse “vou-me embora”.
E no lugar da mesa onde espalhávamos as garrafas, ficou apenas o chão empoeirado.
No lugar das nossas palavras tristes e risos,
o som de mar quebrando - ao longe.
- Você gostou de hoje?
- Claro que gostei. Por que não gostaria?
- Não sei... Apenas perguntei...
- Então deixa de besteira e me beija aqui... Bem aqui, ó...
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